Flaugnarde de uvas e avelã | Black grapes and hazelnut flaugnarde

Um dia de Outono, luminoso e frio, daqueles em que a luz do sol atravessa o ar como se este fosse um espelho fino de gelo, refletindo cores e criando brilhos que se elevam e diluem no horizonte.
Um percurso por entre montes forrados a verde com os topos a tocarem o azul profundo do céu. E um destino. Uma aldeia: Drave a aldeia mágica.
Começamos em Regoufe (concelho de Arouca), uma aldeia muito bonita que fica virada para um vale coberto por largos campos de cultivo, atravessados por um pequeno ribeiro em constante movimento. No cimo ainda se vê um aglomerado cinzento com o que resta das antigas minas de volfrâmio. Do outro lado do ribeiro, um caminho de pedras sinuoso, onde uma cadela preta corre e ladra, impondo a ordem e o trajeto a um fato de cabras. Este é o início do trilho que nos vai levar a uma aldeia perdida no tempo. Pela frente temos uma caminhada de aproximadamente 4 km, cerca de uma hora. Nada de mais para quem está habituado a estas andanças. Ainda assim e se houverem caminhantes novatos aí desse lado do ecran, a pensarem em fazer este trilho, posso dizer-vos que apesar de ser de curta duração, tem ainda assim um certo grau de dificuldade, o que é contrário ao que tinha lido sobre o trajeto. As descidas e subidas são acentuadas e o piso é em parte bastante irregular, com pedras grandes a obrigarem-nos a desviar a atenção da paisagem para não tropeçarmos e rebolarmos monte abaixo. A designação de “baixa dificuldade” dada a este trilho pode facilmente ser mal interpretada. No entanto o fim justifica plenamente o esforço. O caminho faz-se pela serra, onde só se ouvem o vento e os pássaros e quando a certa altura se vê finalmente ao longe a pequena aldeia, guardada na profundeza agreste dos montes, parece-nos que ela está ali só para nós. À espera que a descobríssemos, nós e mais ninguém.
À chegada Drave parece uma aldeia encantada, a chamar-nos do lado de lá da ponte rústica de pedra. O conjunto principal de casas de xisto quase todas em ruínas, onde se destacam o solar da família Martins (a casa original melhor conservada) e a capelinha branca construída em honra à Nª Sª da Saúde. Junto à ponte está um pilriteiro que nesta altura do ano está coberto com bagas de um vermelho vibrante, pontos de cor na paisagem de xisto. Ali já não vive ninguém mas a aldeia ainda vibra. Nos campos das redondezas vêem-se castanheiros jovens, recém plantados e numa fogueira há cinzas recentes e restos de castanhas. Celebrou-se aqui o S. Martinho. Os escuteiros já recuperaram algumas das casas e passam ali temporadas em contacto com a natureza e com a espiritualidade. Será que é por isso que lhe chamam aldeia mágica? Talvez. Enquanto explorávamos a aldeia as perguntas brotavam como rebentos em solo fértil. Quem chegou ali primeiro? Há quantos séculos? Como seria no início? Se ainda hoje é tão isolado… Encontrei um pouco da história da família Martins aqui. Um ligeiro levantar da cortina de fumo imposta pelo tempo.
De Regoufe trouxemos uvas pretas, americanas, com as quais se faz bom vinho tinto/verde. Daquelas de pele macia que se abre na boca libertando a polpa sumarenta de sabor delicioso e inconfundível. Assim, acabadas de apanhar, são tudo de bom e bastam-se a si mesmas mas eu quis aproveitá-las para fazer um flaugnarde de uvas e avelã. O flaugnarde francês de Limousine é uma mistura de clafoutis e de dutch pancake. O melhor de dois mundos. A maciez e fofura de uma massa cozida no forno, com uvas e o sabor marcado das avelãs. Mais uma receita pensada para estes dias de Outono. Reminiscências de um dia luminoso e frio, passado na serra entre duas aldeias bem portuguesas.
IN ENGLISH
An Autumn day, bright and cold, those in which the sunlight passes through the air as if it was a fine glass of ice, reflecting colors and creating glows that rise and dilute into the horizon.
A journey through hills lined with green with the tops touching the deep blue in the sky. And a destination. A village: Drave the magic village.
We started in Regoufe, a beautiful village that lies in a valley covered with wide farming fields, traversed by a small stream always in motion. Perched one still sees a gray  with the remains of the old tungsten mines and on the other side of the stream, the winding stone path where a black dog runs and barks, imposing order and the way for a group of goats. This is the beginning of the trail that will lead us to a village lost in time. Ahead of us is a four km hike, about one hour. Not much for those who are accustomed to these wanderings, like us. Still, if there are novices therein that side of the screen, thinking about walking this trail, I can tell you that despite being short there´s still a certain degree of difficulty to it, which is contrary to what i´ve read about it. The descents and climbs are steep and the ground is in part very irregular, with large stones obliging us to divert the attention from the landscape to prevent from stumbling and rolling down hill. The designation of “low difficulty” given to this trail can easilly be misinterpreted. However the end fully justifies the effort. The trail crosses the sierra, where we can only hear the wind and the birds and when at a certain point we finally see the little village in the distance, seated in the depths of the untamed hills, it seems like it´s there just for us. Waiting for us to discover it, us and no one else.
Upon arrival, Drave looks like an enchanted village, calling us from the other side of the old, rustic stone bridge. A cluster of schist houses, almost all in ruins where the highlights are the solar of the Martins family and the small white chapel, built in honor of Nª sª da Saúde (our lady of the health). Next to the bridge a hawthorn, that in this time of year is covered with vibrant red berries, dots of color in the schist landscape. No one lives there any more but the village still vibrates. In the fields nearby we can see young chestnut trees, newly planted and a campfire with recent ashes and remains of chestnuts. Someone celebrated S. Martinho there. Scouts have already recovered a few houses and they spend periods of time there in contact with the nature and with their spirituality. Is that why they call it magic village? Maybe. While we explored the village, questions sprang like shoots in fertil soil: Who got there first? How many centuries ago? How was it in the beginning? If today is still so isolated… I found a bit of the history of the Martins family here. A slight lift of the smoke curtain imposed by time.
From Regoufe we brought black american grapes, with which a wonderful tart/red wine is made. The kind with soft skin that opens in the mouth releasing the juicy pulp of delicious and distinctive flavor. When served plain they are everything good, but I wanted to take of advantage of them to make a black grapes and hazelnut  flaugnarde. The french flaugnarde from Limousin is a mixture of clafoutis and dutch pancake. The best of two worlds. The softness and flufiness of a batter baked in the oven, with grapes and the marked flavor of the hazelnuts. Another recipe thought for these Autumn days. Reminiscences of a luminous, cold day, spent in the sierra between two portuguese villages.

 

 

 

 

 

 

 




Ingredientes:

  • 100 g de farinha
  • 100 g de avelã moída (moí avelãs com a pele)
  • 2 dl de leite meio gordo
  • 4 ovos
  • 40 g de açúcar
  • 1 pitada de sal
  • Uvas pretas pequenas a gosto (usei uvas americanas)
  • Manteiga para untar a sertã ou assadeira
  • Açúcar em pó para polvilhar

 

Preparação:

  1. Unte uma sertã à prova de forno ou assadeira com manteiga.
  2. Pré aqueça forno a 200º, marca 6 do fogão a gás.
  3. Numa taça junte todos os ingredientes mas apenas metade da quantidade de leite. Mexa para ligar e junte o leite restante. Mexa novamente mas não em demasia ou a massa não focará tão fofa depois de cozida.
  4. Verta a mistura na sertã ou recipiente escolhido, espalhe uvas a gosto no centro e leve ao forno por 20 minutos, até o flaugnarde ficar tufado nos lados e ganhar uma bonita cor dourada.
  5. É uma delícia acabado de sair do forno, polvilhado com bastante açúcar em pó. Mas também vale bem a pena, comido morno ou mesmo frio.

Ingredients:

  • 100 g plain flour
  • 100 g ground hazelnuts (I used hazelnuts with the peel on)
  • 2 dl semi skimmed milk
  • 4 eggs
  • 40 g caster sugar
  • Pinch of salt
  • Black small grapes to taste
  • Butter for the skillet
  • Powdered sugar for dusting

 

Preparation:

  1. Butter a medium/large skillet and set aside.
  2. Preheat the oven to 200º, 400f, gas mark 6.
  3. In a large bowl mix together all the ingredients with half the amount of the milk, until combined.
  4. Stir in the remaining milk but don´t over do it so the flaugnarde stays flully and light.
    Pour the batter into the skillet, drop a few grapes in the middle and bake for 20 minutes, until puffed and beautifully browned.
  5. It´s wonderful still hot, right out of the oven dusted with lots of icing sugar but it´s also great warm or even cold.

 

 

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