Parfait the cerejas e madressilva com creme de ricotta e baunilha # Cherries and honeysuckle parfait with ricotta and vanilla cream

 

Já passaram várias semanas desde a nossa ida ao Parque Natural do Alvão mas a verdade é que nem o passar do tempo bate o poder da memória e das imagens que fui clicando entre montes e vales.

Fizemo-nos à estrada num dia apagado e cinzento, começo de jornada nada auspicioso para uma fotógrafa como eu, que gosta de luz, brilho e cor. Com poucos quilómetros feitos, já eu desconfiava da minha – até então –  boa relação com S. Pedro que nunca me tinha falhado nos assuntos imprevisíveis da meteorologia,   mas enquanto íamos subindo por entre estradas serpenteantes e húmidas de chuva, contornando monte após monte, fui descobrindo naquele quase bréu um quê de mágico. A imensidão de um cenário forte, agreste e brumoso, que o barulho do vento na altitude tornava ainda mais irreal. Mas e daí? Eu já devia saber mais. Soltem-me de pé no chão na dureza das pedras enchuveiradas ou na maciez da terra quente e toda eu passo também a ser monte… e aldeia e ribeiro de água cristalina.

Pela noite o calor da lareira acesa e o jantar típico e reconfortante, regado a bom tinto, soltaram o fio à meada das palavras, que fluíram sem pressas, no arrastar vagaroso das horas tardias. Palavras sobre a magia de um dia apagado e cinzento… mas ainda assim único.

Segundo dia.
De volta às boas graças do S. Pedro. Ainda no terraço do quarto já se adivinhava o azul do céu escondido nas brumas da manhã serrana. Aqui e ali, no dissipar da névoa, fragmentos de luz a revelar as cores que cobrem o Alvão em plena Primavera. É uma coisa linda de se ver. O manto gigantesco, multicolor, com muitos tons de púrpura e amarelo, da urze e da carqueja.

Da mesa farta do pequeno almoço saltamos de novo para a estrada. O nosso teto era agora um céu azul deslumbrante, com o vento suave a dar formas lindas e estranhas às nuvens, um céu feito à minha medida. Na barragem do Alvão deixámos o carro para trás. O aqui e agora passou a ser apenas o calcar dos montes, o cantar dos pássaros e o labor frenético das abelhas. Aos poucos o perfume a flores silvestres disperso no ar passou de ténue a embriagante. O perfume era de mel, doce e aromático. Nunca o tinha sentido assim tão forte, nem mesmo no Gerês. Aprendi há muito que o bom  mel não cheira a “mel”, cheira a urze e outras flores silvestres.

Para trás fomos deixando matas, pequenos lagos, ribeiros e descampados, sob a proteção do mesmo céu, azul, lindo e estranho.

Invadimos aldeias. Falamos com estranhos a transbordar hospitalidade. Partilhámos chão com ovelhas, cabras e vacas. Cedemos ao cansaço do corpo debaixo de pinheiros e carvalhos centenários. Bebemos das fontes dos trilhos. Mergulhámos o olhar em águas translúcidas como diamante líquido. Pousamos os sentidos nas Acácias em flor. Pisamos erva tenra. Galgamos pedra dura. Cruzamos pontes. Abrimos caminhos. E na hora do regresso trouxemos tudo isto e muito mais…

E agora, semanas mais tarde, ainda com o Alvão à flor da pele,  o perfume da urze e da carqueja passou a ser o da madressilva que cresce aqui bem perto de casa.

Um perfume e um parfait cremoso, com cerejas maduras, ricotta e baunilha.

Pois aqui, longe dos montes, há outras formas de inebriar os sentidos.

In English
It´s been several weeks since our trip to Natural Park of Alvão but the truth is that not even the passage of time beats the power of memory and the images that I shot between hills and valeys.

We hit the road on an unlit and gray day, an inauspicious journey beginning for a photographer like me that likes, light, glitter and color. With few kilometers made I was already suspecting my so far good relationship with St. Peter who hitherto had never failed me in the unpredictable matters of meteororlogy. And while we were driving up through winding, wet from the rain roads, contouring hills after hills, I discovered in this almost pitch black a touch of magic. The immensity of a strong scenario, rough and hazy, that the noise of the wind in the altitude made even more unreal.
But, so what? I should  known better. Unleash me, bare feet on the ground in the hardness of wet stones or the softness of the warm earth and all of me becomes the hills also, and villages and streams of crystal clear water.

By night time the heat of the fireplace and the typical and comforting dinner with a good red to boot, loose the thread of the yarn of words, that flowed leisurely in the slow dragging of the late hours. Words about the magic of an unlit, gray day.

Second day.
Back to the good grace of St. Peter. Still in the bedroom terrace one could already guess the blue of the sky hidden in the mists of the serrana morning. Here and there, in the dispelling of the fog, fragments of light revealing the colors that cover the Alvão in full Spring. It´s a beautiful thing to behold. The giant, multicolor mantle, with many shades of purple and yellow from the heather and the gorse. From the plentiful breakfast table we jumped back to the road.  Our ceiling was now a dazzling sky, with the gentle wind giving strange, beautiful shapes to the clouds, a sky made to my measure. At the dam of Alvão we left the car behind. The here and now became only the trample of the hills, the singing of the birds and the frantic work of the bees. Gradually the scent of wild flowers dispersed in the air went from tenuous to inebriating. The scent was that of honey, sweet and aromatic. I had never felt it so strong, not even in Gerês. Í´ve learned a long time ago that good honey doesn´t smell like “honey”, it smells like heather and other wild flowers.

Behind we left forests, ponds, streams and open fields, under the protection of the same sky, blue, beautiful and strange.

We invaded small villages, We talked to strangers overflowing hospitality. Shared ground with sheep, goats and cows. We gave in to the fatigue of the body  under centenary pines and oaks. We drank from the fountains of the tracks. We dived the gaze into clear waters like liquid diamonds. And landed the senses in Acacias in bloom. Steped tender grass. Leaped hard stones. We crossed bridges. Opened paths. And by the time we returned, we brought all this and much more…

And now, weeks later, with the Alvão still under my skin, the scent of the heather and the gorse has become the one of the honeysuckle that grows near my home. A perfume and a creamy  parfait, with ripe cherries, ricotta and vanilla.

For here, away from the hills, there are other ways to inebriate the senses.

 

 

 




Ingredientes: 4 a 5 copos médios
500 g de cerejas
100 g de açúcar
2, 1/2 colheres de sopa de maizena (amido de milho)
12 flores de madressilva (podem substituir por jasmim seco mas usem um pouco menos)
100 ml de água
Creme de ricotta e baunilha:
200 ml de natas frescas
250 g de ricotta
3 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá de baunilha em pó ou de sementes de baunilha (raspadas de uma vagem)
Pistachios picados para decorar
Cerejas para decorar

Preparação:
*Num processador triture o açúcar com as flores de madressilva até ficarem desfeitas.
*Tire os caroços às cerejas. Num tacho junte-lhes a a água, o açúcar e a maizena, mexa bem e leve a lume médio até engrossar, vá mexendo e deixe borbulhar por 2 minutos para cozer a maizena. Tire do lume e deixe arrefecer.
*Bata as natas até começarem a ganhar volume, junte o açúcar e continue a bater até ficarm mais espessas mas não muito firmes.
*Bata o ricotta para o amaciar e junte-lhe as natas mas agora sem bater.
*No fundo de cada copo coloque uma camada de molho de cerejas e madressilva, cubra com o creme de ricotta e baunilha e decore com pistachios picados e cerejas frescas.
*Leve ao frio antes de servir.

Ingredients: 4 to 5 medium glasses
500 g cherries
100 g caster sugar
2, 1/2 tbsp corn starch
12 honeysuckle flowers (you can use dried jasmine but use a bit less)
100 ml water
Ricotta and vanilla cream:
200 ml cold whipping cream
250 g ricotta
3 tbsp caster sugar
1 tsp vanilla powder or vanilla seeds

Preparation:
*Put the sugar and honeysuckle flowers into a food processor and process until the flowers are dissolved into the sugar.
*Remove the pits from the cherries. Put them in a pot and stir in the water, sugar and corn starch. Take to medium heat until it thickens, keep stirring and let it bubble away for 2 minutes to cook the corn starch. *Remove from the heat and let it cool.
*Whip the cream until it begins to thicken, beat in the sugar until it thickens a bit more but not until firm.
*Beat the ricotta to soften it up and fold in the cream.
*At the bottom of each glass put a good layer of cherries, honeysuckle sauce, cover with the ricotta, vanilla  cream and decorate with chopped pistachios and fresh cherries.
*Put in the fridge for a couple of hours before serving.

 

8 thoughts on “Parfait the cerejas e madressilva com creme de ricotta e baunilha # Cherries and honeysuckle parfait with ricotta and vanilla cream

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