Cheesecake de rosas e morangos # Roses and strawberries cheesecake

 

Alguém me perguntou há dias como era para mim o processo de Food Styling, e a frase que me saiu pronta foi a mesma que disse anos atrás no workshop que dei no CAE e que cada vez mais faz todo o sentido para mim:

“Estilizar comida é um exercício de meditação.”

Eu estou ali, naquele momento e de corpo e alma. Não há passado nem futuro, só o presente que estou a criar.  Pacientemente, em cada receita que cozinho, no movimento dos sentidos, em cada mudança na composição, a atenção absorta pelo mais ínfimo dos detalhes. Até que a visão que muitas vezes eu nem sequer sabia que procurava se materializa à minha frente. Acho que é a isso que se chama um trabalho de amor.

Este é o meu processo. Um processo intimista, tranquilo porque para mim tem de ser assim. O silêncio e a solidão das horas de trabalho, entre a cozinha e o estúdio não me assustam, muito pelo contrário. São combustível para criar. O meu trabalho criativo sou eu. EU. Sem conceitos estereotipados, ou doutrinas de estilo. Nele apenas cabe a minha essência. De outra forma não seria o meu trabalho mas o de outra pessoa qualquer.

E o uso desta mantem-me fiel a mim mesma. E isso quando se vive num mundo tão influenciado por todo o tipo de imagens ( não só de comida) não é tarefa fácil mas é algo que vale muito a pena conseguir.

E agora vamos falar de cheesecake. O creme delicado, macio, de queijo creme suave a cobrir uma camada espessa de bolachas e manteiga feitas em migalhas. O tipo de doce que não dá descanso à minha colher 🙂

Na minha, como provavelmente na vossa cozinha também, há vários recantos com frascos e frasquinhos cheios de ervas aromáticas e flores para chás que sequei ou comprei, sais, especiarias e demais ingredientes. Sentir-lhes o perfume é das coisas que mais gosto de fazer quando estou entre tachos e panelas. Mas o meu perfume preferido é o das pétalas de rosa secas.

Para esta receita reduzi-as a pó num moínho de café e misturei-as no creme do cheesecake que para além de impregnado de sabor floral ficou também coberto por lindas partículas cor de rosa.

E caso não saibam, as rosas e os morangos são um casamento feito no céu! O que me deixa pouco mais a dizer sobre esta beleza cremosa.

Sendo assim, acho que vou deixar que descubram o resto por conta própria.

 

 

In English

Someone asked me the other day what the Food Styling process was for me and the phrase that came out ready was the same one I said years ago at the workshop I taught at CAE and that it makes all sense for me:

“Stylizing food is an exercise of meditation.”

I am there, in that moment, body and soul. There is no past or future, just the present that I am creating. Patiently, in every recipe I cook, in the movement of the senses, in every change in the composition, the attention absorbed by the tiniest of details. Until the vision I often did not even know I was looking for materializes in front of me. I guess that´s what you call a labor of love.

This is my process. An intimate, quiet process because it has to be this way for me. The silence and the loneliness of working hours, between the kitchen and the studio do not frighten me, quite the opposite. They are fuel to create. My creative work is me. ME. No stereotyped concepts, or doctrines of style. In it only my essence fits. Otherwise it would not be my work but someone else´s.

And the use of it keeps me true to myself. And that when you live in a world so influenced by all kinds of images (not just food) is not an easy task but it is so worth to achieve.

Now, let´s talk cheesecake. That delicate, mild, soft cheese cream on top of a thick layer of crumbled cookies and butter.  The kind of dessert that doesn´t give rest to my spoon 🙂

In mine, as probably in your kitchen too, there are several nooks with jars and more jars filled with aromatics and flowers for tea that I dried or bought, salts, spices and other ingredients. Feeling their perfume is one of the things I love the most when I am between pots and pans. But my favorite perfume is that of the dried rose petals.

For this recipe I reduced them to powder in a coffee grinder and mixed them in the cream of the cheesecake that besides being impregnated with the floral flavor was also covered with beautiful pink particles.

And just in case you didn´t know, roses and strawberries are a match made in heaven! Which leaves me little more to say about this creamy beauty.

So…, I think I will let you figure out the rest by yourself.

 

 

 

Na secção das bebidas espirituosas podem encontrar junto ao gin, caixinhas de pétalas de rosa secas, comestíveis. As rosas compradas nas floristas não são comestíveis.

Ingredientes:

  • 200 g de bolachas digestivas
  • 100 g de manteiga mole
  • 600 g de queijo creme
  • 200 ml de natas frescas, bem frias
  • 4 folhas de gelatina
  • 100 g de açúcar em pó
  • 3 colheres de sopa bem cheias de pétalas de rosa secas

Molho de morangos:

  • 100 g de morangos
  • 50 ml de água fria

 

Preparação:

  1. Num processador triture as bolachas com a manteiga mole até que fiquem em migalhas finas.
  2. Forre o fundo de uma forma de fecho com 18 cm de diametro com a massa de bolacha e pressione com os dedos para criar uma camada uniforme.
  3. Coloque as folhas de gelatina numa taça com água fria para amolecerem. Quando estiverem moles escorra ligeiramente e leve-as a lume baixo para derreterem, não deixe que fervam, se isso acontecer não solidificam.
  4. Para pulverizar as pétalas de rosa vai precisar de um moinho de café. Assim que ficarem quase em pó (se ficarem uns pedacinhos maiores não tem mal) reserve.
  5. Bata as natas até firmes.
  6. Bata o queijo creme com o açúcar, junte as folhas de gelatina e as natas batidas e verta a mistura por cima da base de bolacha.
  7. Leve ao frio por pelo menos 5 horas antes de servir, até que fique bem firme.
  8. Para fazer o molho triture os morangos com a água num liquidificador.
  9. Para desenformar basta passar uma faca pelas bordas da forma e abri-la.
  10. Sirva decorado com morangos e com o molho de morangos.

 

 

In the section of the spirits you can find next to the gin, boxes of edible dried rose petals. Roses purchased from florists are not edible.

Ingredients:

  • 600 g cream cheese
  • 200 g digestive cookies
  • 100 g soft butter
  • 200 ml of whipping cream
  • 4 gelatin leaves
  • 100 g confectioner sugar
  • 3 full tbsp of dried rose petals (edible)

Strawberry sauce:

  • 100 g strawberries
  • 50 ml cold water

Preparation:

  1. In a processor, crush the biscuits with the soft butter until they turn into crumbs.
  2. Line the bottom of a 18-cm diameter springform cake pan  with the dough and press with your fingers to create a uniform layer.
  3. Place the gelatin sheets in a bowl of cold water to soften. When they are soft, drain slightly and bring to low heat to melt, do not let them boil, if that hapends they will not solidify.
  4. To powder the rose petals you will need a coffee grinder. As soon as they are almost in powder (it´s ok if there´s some bigger pieces) reserve.
  5. Whip the cream until firm.
  6. Beat the cream cheese with the sugar, fold in the leaves of gelatin and the whipped cream and pour the mixture over the cookie base.
  7. Refrigerate for at least 5 hours before serving until firm.
  8. To make the sauce, blitz the strawberries with the water in a blender.
  9. To unmold all you have to do is pass a knife through the edges of the pan and open it.
  10. Serve decorated with strawberries and the strawberry sauce.

 

 

Bolo de morango, flores de acácia e amêndoa # Strawberry, acacia flowers and almond cake

 

 

 

Sempre que contorno a zona ribeirinha de Gaia, entre a Ponte D. Luís e o mar aberto, viajo no tempo e homenageio a memória.
O pequeno monte onde em tempos se ergueu o Castelo de Gaia. As caves e o vinho do Porto. A lembrança das histórias e lendas de pedra, metal e fogo dos povos castrejos, dos romanos, de reis mouros e reis cristãos.  E depois as quintas centenárias, agora abandonadas.  Estes lugares têm uma energia única, especial. São um registo invisível de tudo o que por eles passou. Dias de guerra e de glória, de riqueza e de declínio. Cumpriram o seu propósito e chegada a hora a terra tomou de volta o que nunca deixou de ser seu. Hoje as senhoras destas terras despovoadas são as árvores.  Alguns dos muros altos, grossos, de pedra antiga que antes defendiam as terras cultivadas e as casas senhoriais, guardam agora ruinas e florestas indomadas, onde cada Primavera vê renascer o reino das acácias.
Esta semana passei mais uma vez pelos muros altos de uma velha quinta de Gaia, ao longo do qual as acácias formam uma fila de finos ramos que tombam, deixando os cachos de flores perfeitas, brancas e perfumadas para quem as quiser colher.
As acácias têm um perfume suave, doce e delicioso. Só se usam as flores e os pedunculos; a casca , as sementes e a raíz são tóxicas. Mas as flores… as flores apelam ao açúcar, lembram coisas doces, apetecem-me em bolos, daqueles simples, caseiros que pedem chávenas de chá ou de café acabados de fazer. Como este,  feito de uma massa amanteigada, enriquecido com flores, com amêndoa e pedaços de morango que o tornam extra húmido.
Se eu conseguisse guardar a Primavera em algo que fizesse, por certo seria assim.

In English
Whenever I contour the riverside area of Gaia, between the D. Luís bridge and the open sea, I travel in time and pay homage to the memory.
The small hill where once stood the Gaia castle. The cellars and the Porto Wine.The remembering of the stories and legends of stone, metal and fire of the Castrejos people, the Romans, Moors kings and Christian kings. And then the centenary farms or quintas as we call them, now abandoned. These places have a unique, special energy. They are an invisible record of everything that passed through them. Days of war and glory, of wealth and decline. They fulfilled their purpose and when the hour arrived the land took back what never ceased to belong to it. Today the ladies of these depopulated lands are the trees. Some of the old stone, thick, tall walls that used to defend the cultivated fields and manors, now keep the ruins and untamed forests where each Spring sees the rebirth of the kingdom of the acacias.
This week I passed once again near the tall walls of an old farm in Gaia, along which acacias form a row of thin branches toppling, leaving bunches of perfect flowers, white and scented, to anyone who wants to pick them.
The acacias have a soft, sweet and delicious scent. You only use the flowers and the peduncles; the bark, seeds and roots are toxic. But the flowers… the flowers appeal to sugar, remind sweet things, I want them in cakes, simple, homemade cakes that ask for fresh tea or freshly brewed coffee. Like this one made of a buttery batter, enriched with flowers, with almond and pieces of strawberries that make it extra moist.
If I could keep Spring in something made by me, certainly it would be so.

 

 

 

 


  • Ingredientes:
    500 g de morangos lavados e cortados em pedaços
    100 g de farinha sem fermento
    100 g de amêndoa moída
    100 g de Amido de milho
    200 g de manteiga sem sal, amolecida
    200 g de açúcar branco
    30 g de açúcar amarelo
    4 ovos médios
    1 colher de chá de extrato ou aroma de baunilha
    2 colheres de chá de fermento em pó
    1 pitada de sal
    30 g de flores de acácia
    50 g de amêndoa laminada
    Açúcar em pó para decorar
    Natas para servir
  • Preparação:
    *Unte uma forma de fundo falso com manteiga, forre a base com papel vegetal e polvilhe com farinha.
    *Pré aqueça o forno a 170º, marca 3 do fogão a gás.
    *Bata a manteiga com as 200 g de açúcar, a baunilha e o sal até ficarem em creme, pelo menos 3 minutos.
    *Junte os ovos um a um e batendo entre cada adição.
    *Junte 50 g do amido de milho e bata.
    *Peneire a farinha, o fermento e o restante amido e misture com a amêndoa moída. Junte à massa do bolo e mexa bem para ligar.
    *Por fim envolva as flores de acácia na massa.
    *Coloque a massa na forma, alise e por cima coloque os morangos pressionando-os um pouco na massa.
    *Polvilhe com o açúcar amarelo e com as lascas de amêndoa e leve ao forno por cerca de 50 minutos, ou até que um palito inserido no meio saia seco.
    *Tire do forno, deixe arrefecer 5 minutos, desenforme e polvilhe com açúcar em pó.
    *Também pode espalhar alguns morangos frescos e mais lascas de amêndoa a gosto.
    *Sirva com natas.

 

  • Ingredients:
    500 g strawberries, washed and cut into pieces
    100 g cake flour
    100 g ground almond
    100 g corn starch
    200 g unsalted butter, soft
    200 g caster sugar
    30 g light brown sugar
    4 medium eggs
    1 tsp vanilla extratct
    2 tsps baking powder
    Pinch of salt
    30 g acacia flowers
    50 g sliced almond
    Icing sugar for dusting
    Double cream to serve
  • Preparation:
    * Butter and line the bottom of a springform cake tin, dust with flour.
    *Preheat the oven to 170º, 325F, gas mark 3.
    *Beat the butter with the sugar, salt and vanilla until soft and fluffy, no less than 3 minutes.
    *Add the eggs, one by one, beating between aditions.
    *Beat in 50 g of the corn starch.
    *Sift the flour, baking powder and the remaining corn starch and mix with the ground almond. Add to the cake batter and mix until well combined.
    *Fold in the acacia flowers into the batter.
    *Pour the batter into the prepared tin, smooth the top, spread the strawberry pieces all over and press them into the batter a bit. Sprinkle with the light brown sugar and the sliced almonds and bake for 50 minutes or until a skewer inserted in the middle of the cake comes out clean.
    *Remove from the oven, let it cool for 5 minutes and unmold carefully. Let it come to room temperature and dust with some icing sugar.
    *You can decorate the cake with fresh strawberries and sliced almonds.
    *Serve with double cream.