Tarte natural de camarinhas e amoras # Natural crowberry and blackberry pie

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Lembro-me das muitas férias que passei em Mira quando era miúda. Da praia de areia branca e fina onde com o meu pai vi muitas vezes a prática que agora é chamada de Arte Xávega: A força bruta dos bois usada para puxar os barcos e as redes de pesca que deixavam no rasto peixes pequeninos, que pareciam flashes prateados a dispararem da areia. Na altura havia muito a explorar. A lagoa,  os viveiros de carpas, as retas intermináveis que atravessavam uma vasta extensão de pinhal com transversais de terra batida que davam a descobrir praias lindas, selvagens e praticamente desertas. E sempre, por todo o lado, os perfumes fortes e quentes do pinho e das camarinheiras, exalados sob a força do sol. 

Aprendi com o meu pai a gostar de camarinhas. As bagas brancas, rijas e semi transparentes que crescem quase exclusivamente na costa atlântica da Península Ibérica. Na minha meninice apanhá-las era um ritual de férias. Uma daquelas coisas que parecem fazer parte de um universo paralelo ao qual só se tem acesso em circunstâncias especiais.

Voltei a Mira há alguns anos atrás mas de alguma forma a magia perdera-se. Não sei se por culpa dos meus olhos, já adultos e sem os filtros mágicos da infância, registarem aquele lugar de uma forma mais crua, ou se porque na verdade muito mudou por lá entretanto.

Mas a uns quantos quilómetros de onde vivo ainda posso encontrar extensões de mata atlântica onde por esta altura as camarinheiras estão cheias de bagas. E este ano pela primeira fiz uma tarte com elas.

As camarinhas são ácidas e levemente doces. Quando bem maduras ficam transparentes e levemente  rosadas e depois de cozinhadas tornam-se definitivamente cor de rosa.

Esta é uma tarte simples, natural, sem outros aromas adicionados.  De alguma forma eu queria os aromas da floresta em cada dentada de massa areada, coberta com recheio rosa, doce e ácido de frutos silvestres,  o autêntico sabor das bagas, afinal de contas estes são frutos silvestres, apanhados por mim e eu tenho um monte de arranhões para prová-lo 🙂

 

In English

I remember the many holidays I spent in Mira when I was a kid. The beach of fine, white sand where with my father I saw many times the practice of the Arte Xávega: The brute force of the oxen used to pull the boats and fishing nets from the sea, leaving on their track tiny fishes that looked like silvery flashes shooting from the sand. At the time there was a lot to explore. The lagoon, the koi fish nurseries, the endless straight streets crossing a vast pinewood extension with dusty transversal roads that lead to beautiful, wild and almost deserted beaches. And always, everywhere, the strong, warm scents of pine and white crowberries bushes, exhaled under the force of the sun.

I learned from my father to enjoy camarinhas. The white, firm, semi transparent berries that grow almost exclusively in the atlantic coast of the Iberian Peninsula. In my childhood foraging for them was a vacation ritual. One of those things that seem to be part of a parallel universe to which one can only have access in special circumstances.

I returned to Mira a few years ago but somehow the magic was lost. I do not know if my adult eyes were to blame for  registering the place in a more raw manner, since they no longer have the magic filters of childwood, or just because actually a lot has changed there in the meantime.

But a few kilometers from where I live, in Gaia, I can still find pinewoods extensions where by this time the camarinheiras, as we call them in Portugal,  are full of berries. And this year for the first time ever,  I made a pie with them. And as we´ve been foraging also for blackberries since mid August, It came out to be a crowberry, blackberry pie. A beautiful pink pie, for the white crowberries when ripe become transparent, and slightly pink and when cooked they become brightly pink.

This is a simple, natural pie, without other flavors added. Somehow I wanted the scents of the forest in each bite of flaky crust topped with pink, syrupy, tart/sweet berry filling, to be able to taste the real flavor of the berries, after all these are wild berries, picked by me and I have a lot of scratches to show for it 🙂

 

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Tarte natural de camarinhas e amoras

 

Esta tarte é a combinação perfeita de doce e ácido. E para quem gosta de textura as grainhas das camarinhas são um toque crocante extra. Eu prefiro uma camada espessa de massa areada quase na mesma proporção do recheio mas se preferirem podem estender a massa mais fina. Já o recheio precisa mesmo de 4 colheres de chá de amido de milho. Pode parecer muito mas as camarinhas, mais do que as amoras largam muito sumo e é preciso espessá-lo para que o recheio fique xaroposo.

 

Ingredientes:

  • Massa:
  • 300g de farinha
  • 150 g de manteiga sem sal, bem fria e cortada em cubos
  • 2 colheres de sopa de água bem fria
  • 1 ovo bem frio
  • Pitada de sal fino
  • Um pouco de leite para pincelar
  • 30 g de açúcar
  • Recheio:
  • 300 g de camarinhas
  • 100 g de amoras
  • 100 g açúcar
  • 4 colheres de chá de amido de milho (maizena)

 

Preparação:

  1. Unte uma tarteira com manteiga e reserve.
  2. Comece por fazer a massa, colocando a farinha, a manteiga, o sal e o açúcar num processador. Processe até que a mistura pareça migalhas finas. Junte o ovo e a água e processe de novo até ficar com uma bola de massa.
  3. Tire do processador, amasse só para unir a massa e faça um disco com a mesma. Embrulhe em película e leve ao frio por 30 minutos.
  4. Estenda a massa numa superfície enfarinhada, até ficar com cerca de 1 cm de espessura e forre uma tarteira com ela. Corte o excesso de massa e usando os dedos faça saliências a toda a volta. Tape com película e leve ao congelador por 15 minutos.
  5. Pré aqueça o forno a 200º, marca 6 do fogão a gás.
  6. Assim que tirar a tarteira do congelador, misture rapidamente as camarinhas com as amoras, o açúcar e a maizena, envolta tudo muito bem, encha a tarteira com os frutos, pincele a borda de massa com o leite e leve ao forno por 25 a 30 minutos, até que a tarte fique dourada e a mistura de bagas comece a borbulhar.
  7. Tire do forno, deixe arrefecer totalmente e sirva com natas batidas, ou gelado de baunilha.

 

 

Natural crowberry and blackberry pie

This pie is the perfect combination between sweet and tart. And for those of you who like a bit of texture, the white crowberries seeds gives it a good extra crunch. I like a thick layer of crust, almost in the same proportion of the filling but you can make it thiner if you prefer. As for the filling you really need 4 teaspoons of cornstarch. It may seem a lot but the crowberries, more than the blackberries, release a lot of juice and you need to thicken it so that the filling becomes syrupy.

 

Ingredients:

  • Dough:
  • 300 g flour
  • 150 g unsalted butter, cold and cut into pieces
  • 30 g caster sugar
  • Pinch of salt
  • 1 cold egg
  • A bit of milk to brush
  • Filling:
  • 300 g white crowberries
  • 100 g blackberries
  • 100 g caster sugar
  • 4 tsps corn starch

 

Preparation:

  1. Butter a tart tin and put aside.
  2. To make the dough I always use a food processor, makes my life a lot easier. So put the flour, butter, salt and sugar into the food processor and process until you have a mixture resembling fine crumbs. Add the egg and water and process until it all comes together, forming a ball.
  3. Remove the dough from the food processor, flatten it into a disk, wrap in clingfilm and put in the fridge for 30 minutes.
  4. Roll out the dough into a floured surface, I like a good layer of crust so I like to make it about 1 cm thick. Line the tin with the dough, cut the excess and using your fingers make a few ledges all around the edges. Cover with clingfilm and put in the freezer for 15 minutes.
  5. Preheat the oven to 200º, 400f, gas mark 6.
  6. Remove the tart from the cold, mix the berries with the sugar and cornstarch carefully but making sure that all the berries are well coated with sugar and corn starch. Pour the mixture into the prepared tin.
  7. Brush the edges of the tart with milk, take to the oven and bake for 25 to 30 minutes, until golden and bubbly.
  8. Remove from the oven. Let it cool completely and serve with whipped cream or vanilla ice cream.

 

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6 thoughts on “Tarte natural de camarinhas e amoras # Natural crowberry and blackberry pie

  1. Nunca tinha visto estas bagas nem delas ouvido falar! Fiquei super curiosa, têm um aspecto deliciosos, lembram-me uns rebuçados de quando era miúda, as bolas de neve. Aqui ao pé de mim não se vê nada disso, se bem que a planta em si – sem as bagas – não me é nada estranha, questiono-me agora de onde a terei visto antes!!

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  2. Hello Mónica! I just discovered your website and I love it! I never tasted white crowberries, they look so cute! I’m not sure they grow here in Finland or if I’ve ever seen them in Italy.. Will they still be around in December? I’ll be then visit Portugal once again 🙂
    Keep up the good work!

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  3. Adorei a sua referência a Mira! Sou de Mira! No mês de Novembro realiza-se uma actividade organizada pela Associação dos Amigos dos Moinhos e do Ambiente da Região da Gândara de apanha de míscaros e degustação. Uma oportunidade de voltar a passear pela floresta de Mira.
    Continuação de um excelente trabalho.

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