Caçarola de chocos e berbigão # Cuttlefish and cockles stew

 

Uma das melhores coisas de viver entre Gaia e o Porto é que sempre que me apetece posso calçar umas sapatilhas, pegar numa mochila com o material fotográfico e fazer-me à estrada, e por algumas horas fazer de conta que sou mais uma turista na correnteza de gentes de todo o mundo que inundam diariamente as margens festivas do rio Douro.

Começamos na Afurada, terra piscatória que neste dia em particular vibrava com a abundância de lampreias. Aqui e ali homens e mulheres estripavam e esfolavam os peixes ainda vivos, pendurados, ora em árvores, ora nos corrimões de metal das passagens, presos pela ventosa. É um peixe estranho a lampreia. E quem o diz são os próprios pescadores. Parece uma cobra, com uma ventosa feia e redonda como boca, que suga tudo o que apanha a jeito.

Horas depois estávamos do outro lado do rio. Para trás deixámos a agitação e o colorido do cais de Gaia e da ribeira do Porto e agora estávamos quase na Foz, no pequeno embarcadouro à espera da lancha que nos ia atravessar pelo Douro até à Afurada. Enquanto esperávamos chegou um pequeno barco com um pescador e mais uma vez as atenções voltaram-se para as lampreias que se mexiam sem parar, dentro de uma rede bem amarrada no chão da embarcação. Juntaram-se alguns homens de volta, o pescador atirou a rede com os peixes para o embarcadouro e logo começaram uma acalorada discussão sobre o tamanho e o aspeto geral dos peixes. A típica conversa por vezes agressiva dos pescadores mas que mais não é do que um regatear que acaba sempre bem. Daí a pouco já uma das lampreias estava pendurada na parede, por uma corrente de metal e a ser preparada. O pescador arrancou-lhe a pele puxando-a para baixo até se soltar completamente do peixe e virando-se para o rio olhou para o céu à procura das gaivotas para lhes atirar o petisco. E aí foi a algazarra total, com várias gaivotas a disputarem em pleno voo a enorme pele, que  com o frenesim dos movimentos mais parecia uma cobra ainda viva a voar sobre as nossas cabeças.

No regresso a casa e ainda com tanto da vida ribeirinha entranhado nos sentidos, eu que não gosto de lampreia fiz uma caçarola de chocos com berbigão, bem apurada e colorida, para me desforrar de tanto sol, tanto peixe e tanto rio com o mar ali tão perto.

Entretanto e porque nestes quinze dias de interregno muito se fez por aqui, espero em breve mostrar-vos algumas das fotos que fiz para publicidade. Me aguardem!!

In English
One of the best things about living between Gaia and  Porto is that whenever I feel like doing so,  put on my snickers, grab my photographic material backpack and hit the road for a few hours and pretend that I´m just one more tourist in the stream of people from around the world that everyday flood the festive shores of Douro river.

We started in Afurada, fishing land that in this particular day was vibrating with the bounty of lampreys. Here and there men and women disembowel and skinned the fish hung in trees and in the metal railings of the passages, trapped by the suction cup. It is a strange fish, the lamprey. The fishermen are the first to say so. It looks like a snake, with an ugly, round suction cup as a mouth, sucking everything on it´s way.

Hours later we were on the other side of the river. We left behind us the colorful Gaia pear and the Porto ribeira and now we were almost at the river mouth, in the small dock waiting for the boat that would cross us through the Douro back to Afurada. While we waited a small boat with a fisherman arrived, and once again the spotlight turned to the lampreys that moved incessantly within a well tied net on the floor of the boat. Some men gathered around it, the fisherman threw the net with the fish to the dock and immediatly began a heated discussion about the size and general appearence of the lampreys. A typical, sometimes agressive, fisherman conversation, that is nothing more than a haggling that always ends well. In no time one of the lampreys was already hung by a metal corrent attatched to the old stone wall and being prepared. The fisherman snatched the skin pulling it down, until it totally came out of the fish, then he turned around facing the river and looked at the sky, looking for the seagulls to toss them the treat.  And that caused a total commotion, with several seagulls disputing in flight the huge skin, which, with the hype of the movements looked like a still alive snake, flying over our heads.

Back home and still with so much of the river life ingrained in my senses, I that dislike lamprey, cooked a cuttlefish and cockles stew, tasty and colorful, to get even of so much sun, so much fish and so much river with the sea so close.

In the meantime and because in these fortnight´s interregnum much has been done around here, hopefully soon I will show you some of the  advertising photos I shoot. Stay tuned!!

 

 

 

 

 

 

Ingredientes:
1 kg de chocos cortados em cubos
600 g de berbigão ainda nas conchas
Camarões com a casca, a gosto
600 g de batatas novas cortadas ao alto
400 g de tomates cereja
300 g de pimento (vermelho, verde, amarelo) cortado em tiras
1 cebola grande cortada em fatias grossas
2 dentes de alho picados
3 colheres de sopa de azeite de boa qualidade
6 dl de caldo de peixe de boa qualidade ou caseiro
2 dl de polpa de tomate
1 folha de louro
Sal a gosto
Pimenta preta a gosto (melhor se for acabada de moer)
Coentros para polvilhar
Sumo de lima para salpicar

Preparação:
*Aqueça o azeite numa panela grande e refogue a cebola, os pimentos e o alho até ficarem macios e libertarem os aromas.
*Junte os tomates inteiros, a folha de louro, os chocos, a polpa de tomate e o caldo. Tempere com sal e pimenta e deixe cozer por cerca de 1/2 hora ou até os chocos ficarem tenros, o que depende também do tamanho dos pedaços, em lume brando e com o tacho tapado, ou até os chocos estarem tenros o que demora algum tempo já que a carne é bastante fibrosa.
*Junte as batatas e deixe cozinhar por mais 10 minutos ou até estarem tenras. Junte mais caldo se achar que precisa.
*Por fim junte o berbigão e os camarões e ferva apenas 1 ou 2 minutos até o berbigão abrir. Retifique os temperos.
*Sirva polvilhado com coentros picados e uns salpicos de sumo de lima.

 

Ingredients:
1 kg of cuttlefish cut into cubes
600 g cockles
Shrimps (2 or 3 for each person)
600 g new potatoes cut lenghtwise
400 g cherry tomatoes
300 g peppers (red, green and yellow) cut into strips
1 big onion cut into big rounds
2 garlic cloves, chopped
3 tbsp extra virgin olive oil
600 ml good quality fish stock
200 ml tomato passata
1 bay leaf
Salt to taste
Black pepper to taste (better if it´s freshly ground)
Chopped coriander
Lime juice

Preparation:
*Heat the olive oil in a big heavy bottomed pan and fry the onion, garlic and peppers until soft and all the aromas rise in the air.
*Stir in the tomatoes, tomato passata, cuttlefish, bay leaf and the stock, season with salt and pepper to taste  and cook for 1/2 hour or until the cuttlefish is tender, in low heat and with the pan with the lid on.
*Stir in the potatoes and cook for another 10 minutes (add more stock if you think it needs it) or until tender and finally add the cockles and shrimps and cook for a couple of minutes just so the cockles open. Adjust the seasonings.
*Serve with chopped coriander and a drizzle of lime juice.

 

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6 thoughts on “Caçarola de chocos e berbigão # Cuttlefish and cockles stew

  1. Nem imaginas como gostei deste post. Também sou assim. Há dias que de forma descontraída parto à descoberta do que é nosso, do que nos rodeia e ao qual nem sempre damos a atenção devida. Adorei a tua reportagem e todo o realismo trazido pelos sítios fotografados e pelas pessoas.
    A receita de hoje, essa, é também muito a meu jeito. Sou fã de pratos de marisco e peixe.
    Beijinhos.
    Patrícia

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  2. Cozinhar sem lactose,
    Obrigada!Lampreias para mim só mesmo fotografadas,esta caçarola é mais ao meu gosto 🙂

    Patrícia
    É um dos meus passatempos preferidos:) Há sempre mais qualquer coisa ou recanto a descobrir, mesmo nos sítios de toda a vida como é o caso de Gaia e do Porto para mim.
    Beijinhos

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  3. Adoro esses passeios pela nossa linda zona ribeirinha/costeira. Normalmente fazê-lo no sentido inverso, com paragem obrigatória nas tasquinhas de Gaia para um copo de vinho do Porto bem fresquinho: para dar alento e energia para continuar a caminhada! 😀

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