Sotavento algarvio – Paladares ao Sul II

No museu do Atum, situado no Hotel Vila Galé Albacora – Arraial Ferreira Neto, fomos guiadas pelo simpático Samuel, biólogo de profissão.
Ali ficámos a perceber melhor toda a dinâmica da montagem das armações para a pesca deste peixe, tão típico da gastronomia do Algarve.
É um sistema de pesca complexo, organizado ao promenor como se de uma campanha militar se tratasse!
Com o passar dos anos, este tipo de pesca caíu em declínio devido a várias razões.
A última armação lançada aconteceu no ano de 1972 e a quantidade de Atuns pescados – 1!…
Depois da visita ao museu, esperáva-nos o almoço no restaurante do hotel.
Este almoço foi uma experiência única, primeiro porque fomos acompanhadas por confrades da Confraria dos Gastrónomos do Algarve, entre eles o Grão Mestre José Manuel Alves e pelo Director do hotel Bruno Martins que nos acolheram com muita simpatia  e boa disposição. Segundo, porque  tivemos a oportunidade de provar “em primeira mão”,  pratos que foram criados para o Festival de gastronomia do mar que está a decorrer  em Tavira até 9 de Maio.
Cada prato foi apresentado pelo chef João Santos e cada prato foi uma descoberta de novas combinações, sabores e texturas!
Para entrada, Polvo suado em chá de flôr de laranjeira com crepes de estupeta de atum.
O prato principal, Duo de porco preto e barriga de atum com arroz de polvo.
E para sobremesa, Azevias de batata doce com gemada de café.
A acompanhar, um rosé da Quinta do Barranco Longo. Uma delícia!
Gostei muito da entrada mas o prato principal e a sobremesa deixaram-me nas nuvens!
Como não tive oportunidade de voltar a falar com o chef João Santos, deixo-lhe aqui os meus parabéns!


O que fizemos a seguir é uma das minhas actividades preferidas…
Um passeio pelo campo à descoberta das ervas aromáticas na excelente companhia do Sr. Coronel Rosa Pinto, uma simpatia de pessoa e um grande conhecedor de ervas e respectivas utilizações  e da querida Clara que  trabalha  para a Associação Almargem.
A mim, quem me põe no meio da natureza, põe-me no paraíso!
Só não me pus aos saltinhos porque parecia mal, mas enfim, com algum custo lá me controlei e de erva em erva e palavra em palavra, lá fui caminhando e absorvendo a sabedoria que nos estava a  ser generosamente oferecida!
Aprendi que a Marioila é um detergente de louça natural e que antigamente nas aldeias usavam-na para esse
fim, pois è desengordurante.
Quanto à Aroeira, há a Aroeira macho e a Aroeira Fêmea que è aquela que dá a flor e antigamente extraía-se o óleo desta planta que era usado como substituto do azeite.
Esta planta tem também uma resina que è usada em farmácia.
Já o Truvisco servia para matar os lobos, pois è muito venenoso.
O Sr. Coronel disse-nos inclusivé que as ovelhas que comem todo o tipo de ervas até as menos saborosas que a outros animais não agradam, desta planta fogem a sete pés! Por muita fome que tenham, desviam-se dela e não lhe tocam.

Depois deste belo passeio, como se não bastasse, ainda fomos paparicadas pela D. Otília Cardeira com chás e bolinhos caseiros numa mesa posta ao ar livre!
A D. Otília, é uma senhora cheia de genica, conhecedora do valor medicinal das ervas e das artes de trabalhar o linho e que se preocupa em manter as tradições da sua terra.
Na aldeia de Cachopo que fica a 40 km. de Tavira, há um Museu vivo do linho onde ainda se faz a tecelagem do linho de forma artesanal. É aí que a D. Otília explica os segredos desta actividade a todos aqueles que estiverem interessados.
Na mesma aldeia existe também um quiosque chamado “Quiosque o Moinho”, propriedade da mesma senhora onde se vendem produtos tradicionais.Uma senhora de se lhe tirar o chapéu!
Com a D. Otília aprendemos que o chá de poejo é muito bom para tratar o colesterol e para esse efeito deve ser tomado durante oito dias seguidos e depois fazer uma pausa.
Depois do lanche e de darmos dois dedos de conversa,- quer dizer não foram bem dois, foi mais um bocadinho-, descemos até ao Pego do Inferno, um sítio muito bonito, com uma cascata que vale a pena visitar.

Regressámos ao hotel e algum tempo depois estávamos à mesa no Restaurante “O Costa” em Cacela Velha, onde comemos umas conquilhas muito saborosas e umas ostras fantásticas e fresquíssimas, a saber a mar.
O arroz de lingueirão e a cataplana de peixe, deram ainda mais brilho a este jantar de inspiração marítima.
Este restaurante tem uma grande esplanada, ideal para comer uns petiscos, nos dias quentes de verão ( e não só! ).

Sábado de manhã:

Jeep Safari pela zona serrana, guiadas pelo Sr. António e pelo Sr. Eric.
Mais um passeio pelo meio da serra que eu adorei, com direito a ver montes e montes cobertos de Estevas, uma planta que nesta altura do ano está ornamentada com grandes flores brancas com manchas cor de vinho no interior mas que lá mais para o Verão fica despida e coberta por uma resina aromática – o ládano – que é usado em perfumes, especialmente como fixador e cujo aroma característico eu adoro.
Passear pela zona serrana de tavira na Primavera, è como passear num imenso jardim coberto de flores selvagens, um jardim de uma beleza rara.

Durante o passeio fizemos algumas paragens para apreciar a paisagem e aprender-mos mais um pouco com o Sr. António e o Sr. Eric que no seu português estrangeirado nos explicou como germinar amêndoas de forma a criar amendoeiras.
Ficámos também a conhecer um alambique típico onde se fazia  a aguardente de medronho de forma artesanal e claro acabámos por provar a dita aguardente, para matar o bicho, como dizia o Sr António, o que, como podem calcular, foi um daqueles momentos para mais tarde recordar, já que para “manter a tradição” o ideal era beber a aguardente de golada e algumas de nós ( moçoilas valentes!) lá bebemos.
Isto é como se costuma dizer, “em Roma sê romano”, porque isto de ir passear para a serra não é só ver as flores e os passarinhos! É por alguns momentos, por breves que sejam, sermos serranos também e se é preciso sentar numa esplanada à beira da estrada de terra batida para matar o bicho, nós sentámos e nós matámos!
Já agora, agradeço ao Sr. António e ao Sr. Eric por nos terem desafiado, pois nunca pensei ser capaz de beber aguardente de um só gole e ainda por cima antes do almoço!

Da serra fomos até Tavira, à loja de produtos biológicos Beterraba.
Esta loja situa-se perto do Mercado Municipal de Tavira e lá encontram-se todo o tipo de ingredientes biológicos, frutas, vegetais, leguminosas, farinhas, azeites e todo o tipo de básicos para abastecer a despensa.
Na Beterraba encontram-se também cosméticos e produtos de limpeza ecológicos com a mais-valia de se ter um atendimento simpático e caloroso.

Depois de fazermos algumas compras, seguimos para o  restaurante “A ver Tavira”, com uma vista panorâmica fantástica.
Mais uma vez fomos muito bem recebidas e entre o Polvo de Santa Luzia com batata doce, o Peito de frango recheado com morcela guarnecido de açorda de amêijoas e espinafres salteados e o Collant de alfarroba com molho de frutos silvestres e gelado de poejo, vivemos novos momentos de  saborosíssimas descobertas gastronómicas.

Finalizado o almoço, seguimos a pé para o  local onde iríamos ter o workshop de bolinhos de maçapão, o  que foi muito bom, já que todas nós estavamos a precisar de um pouco de exercício para espevitar.
Comer bem tem destas coisas, por vezes só nos apetece uma sesta a seguir ao café!
Bem, mas mesmo empanturradas, lá nos entregamos aos doces saberes da D. Cruz, a senhora que nos deu o workshop e que nos apresentou à arte de fazer bolinhos de maçapão.
Luvas calçadas e toca de pôr a mão na massa.
Aos poucos e poucos, lá foram saindo frutos de toda a espécie, alguns de espécies que nem sequer existiam!
Eu por exemplo fiz uma pêra – vulcão, baptizado com este nome pela  Ameixinha, porque o doce de ovos teimava em sair pelo topo do bolinho que realmente mais parecia um vulcão em erupção!
Mas também fizemos coisas bonitas, como podem ver nas fotos.
A minha melhor obra foi uma maça, o que já me deixou contente!
No fim ainda provámos alguns doces, entre os quais, o brigadeiro algarvio que é moldado com maçapão feito com amêndoa com a casca, recheado com doce de ovos e coberto com chocolate granulado, uma coisa do outro mundo!

Continua…

8 thoughts on “Sotavento algarvio – Paladares ao Sul II

  1. Almoços e jantares que me alimentaram a mim e à minha bicha solitária 🙂 Eu como não sou assassina, não matei o bicho e bem podia aproveitar para matar a bicha mas olha… não calhou he he Vou mostrar as tuas fotos à minha mãe… porque as minhas regressaram ao Algarve e nem se despediram de mim 🙂

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